sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

outras estorias

Daniela Araújo, doutoranda em antropologia pela UNICAMP, estuda a relação entre transtornos alimentares e o genero "feminino" na sociedade contemporânea.

Hoje tive acesso, a uma mostra de 1 das 4 de vidas (das mulheres reais) que compõem seu trabalho, segue um trechinho:

"A história de Vivianne havia se interrompido no momento em que atravessava, segundo seu ponto de vista, uma fase extremamente auto-destrutiva. As coisas começaram a melhorar a partir de sua convivência com um grupo de amigos de uma localidade que foi morar. Como sua faculdade previa um período de estágio, ela tentou conseguir um nesse local: “Mas me negaram, daí eu não contei nada para os meus pais e fiquei lá quatro meses de garçonete. E um amigo arranjou a assinatura dos estágios com um político da cidade.”

Vivianne: Eu acho que existiam elementos que consegui exorcizar de mim, se assim posso dizer. A pessoa que eu queria ser era diferente da pessoa que minha família tinha criado e que me suprimia, e que quando eu consegui me ver, e ver quem eu era e ter um propósito de vida, e acreditar em algo, eu melhorei. Eu sei que hoje eles [a família] não gostam do jeito que eu sou, porque não está no padrão deles.Era o oposto do que eu vivia, eles [a família] sempre falavam em preconceito racial, em pobres, em ganhar dos pobres, em supressão da mulher, em todo esse cenário que me fazia mal desde que me entendo por gente, e [eu] acreditava que o mundo era isso. E de repente eu vi que não era, que existiam as coisas que eu acreditava, que eu poderia ser quem eu quisesse.”

Vivianne: "O fato de eu ter 14 anos e achar que eu realmente não tinha perdido nada [virgindade]... literalmente... eu acreditava que não tinha perdido a virgindade ou algo assim. Não que não quisesse acreditar, mas porque na minha cabeça não fazia sentido a perda de um valor que não se perde. Daí eu não queria que acontecesse só mais uma vez e várias vezes, por acontecer. Nem é por ser especial e essas coisas de romance, mas porque eu estava em decomposição e eu sabia disso. Entretanto, eu não queria ser uma vaca, a vaca que muitos meninos falavam. Era uma transição minha, eu queria me descobrir.(...) Enfim, mas não foi nada especial ou marcante, apenas foi. Eu acho que estava entendendo que talvez, na minha experiência, seja algo mais prático do que cheio de definições e blábláblás. É fácil, temos um fim: nascer, reproduzir, morrer. São instintos. Desde essa época passei a ver [o sexo] assim.”

Eu demorei algum tempo para entender que o que Vivianne havia me dito era que transar para ela era algo tão natural quanto qualquer função orgânica do corpo, algo que se faz, sem muita elaboração simbólica. Essa rejeição à atribuição de um sentido mais profundo ao sexo parece ter sido o caminho que Vivianne escolheu para se libertar de todos os significados e implicações de gênero que sua família vinculava à sexualidade feminina. Do mesmo modo, a recusa de Vivianne em vincular sexo a romance é uma alternativa à posição de “dona de casa”, de “boneca” e da dependência emocional que atribuía à mãe em relação a seu pai. Não conceder maior importância ao romance e ao sexo significa, para Vivianne, ter a liberdade de exercer sua heterossexualidade sem ser rotulada e sem se tornar propriedade de alguém".

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